É tudo uma questão de adaptação: obra põe em xeque autoria na pós-modernidade
A questão da adaptação da literatura para o teatro ou para o cinema e vice-versa já rendeu vasta bibliografia sobre as transformações sofridas pelas obras de arte quando transpostas para linguagens diferentes. “O meio é a mensagem”, cunhou McLuhan. Não se diz a mesma coisa em veículos diferentes. Notorizada pelos livros em que desenvolve os conceitos de paródia, ironia e intertextualidade, a teórica canadense Linda Hutcheon foi muita além das discussões sobre a fidelidade aos originais e encontrou na adaptação um emblema do próprio modo de criação na pós-modernidade. Em Uma teoria da adaptação, sua última obra, publicada pela Editora da UFSC, Hutcheon demonstra que com o advento das novas tecnologias de comunicação e a convergência das mídias, toda autoria passa obrigatoriamente pela adaptação.
Entre uma safra de lançamentos de autores contemporâneos de repercussão internacional, a EdUFSC escolheu Uma teoria da adaptação para encerrar na sexta-feira, 8, a Feira de Livros que promove desde o dia 13 de março na Praça da Cidadania, em parceria com a Liga das Editoras Universitárias. Considerada referência nos estudos sobre literatura pós-moderna Linda Hutcheon é fundadora do conceito de metaficção-historiográfica como marca dessa literatura que se alimenta dela mesma e da história enquanto discurso também literário. Foi traduzida por André Cechinel, recém titulado doutor em Teoria Literária pela UFSC com uma tese sobre o poeta T.S. Eliot, ele mesmo um grande adaptador criativo.
Por essa tese, autoria na pós-modernidade não pode escapar à adaptação. Estamos sempre adaptando ainda que de forma não consciente. “Adaptar é um pouco como redecorar”, diz o pensamento de Alfred Uhry na epígrafe do livro. Valendo-se de muitos exemplos ilustrativos que vão desde as tradicionais artes impressas e performativas como cinema, literatura, teatro, ópera e televisão até as mais contemporâneas, como videogames, obras digitais, parques temáticos, covers de músicas, Hutcheon leva esse conceito às últimas conseqüências, a ponto de caracterizá-lo como um modo de criar o novo a partir do velho próprio deste tempo. Revela que esse processo ocorre não só quando as obras derivam de uma adaptação propriamente dita, como no exemplo clássico de um romance que é levado às telas do cinema, mas sempre que alguém (re)cria, (re)escreve e sobretudo quando lê está condenado a fazer adaptações de textos e obras anteriores. Ou seja, adaptação não é exceção, é regra.
A teoria da adaptação permite perceber que a globalização e as novas tecnologias, sobretudo as mídias digitais, estão potencializando esse processo de colagem a ponto de levar à reformulação radical da questão da originalidade e de confundir o que é roubo e plágio. E ainda que as forças capitalistas tentem conter o controle sobre quem é o dono da obra através da lei de direitos autorais, as novas mídias colocam definitivamente em xeque a autoria nos termos românticos que a compreendiam como obra de gênio, original, única e propriedade privada. Sobretudo porque com os novos meios radicaliza-se um terceiro modo de engajamento com as histórias, que não é mais apenas contar e mostrar, mas interagir. E aí, o mais importante, é que Hutcheon considera a intervenção do leitor no mesmo plano da autoria como uma nova adaptação.
Efetuando ela mesma a adaptação de teorias anteriores sobre a intertextualidade e sem a pretensão de inventar a roda, Hutcheon afirma que todas as obras, nesse sentido, são secundárias e que toda arte deriva de outra arte. “As adaptações apenas são as próximas da fila”. Nesse caminho, a despreconceituosa epígrafe do escritor beat William Burroughs já nos anos 60, sustenta a tese da teórica, salvando as adaptações da depreciação como arte secundária recorrentes no senso comum e no meio acadêmico: “No fim das contas, a obra de outros escritores é uma das principais fontes de input para o escritor, então não hesite em utilizá-la; não é porque alguém teve uma ideia que você não pode se apropriar dela e lhe dar um novo desdobramento. As adaptações podem se tornar adoções bem legítimas”.
MORRE O AUTOR, NASCE O ADAPTADOR
Na obra escrita especialmente para a edição brasileira e prefaciada por Anelise Corseuil e Rosana Kamita, ambas professoras da UFSC, Hutcheon teoriza sobre a passagem “transcultural” que ocorre quando uma história é adaptada para outras mídias, gêneros, línguas e culturas. Detém-se a analisar aí um processo que chama de indigenização (indigenization), traduzido como nativização ou aculturação, que faz a obra necessariamente assumir diferentes significados quando apropriada por diferentes sujeitos em seus contextos históricos. “Nós não apenas contamos, como também recontamos nossas histórias. E recontar quase sempre significa adaptar – ‘ajustar’ as histórias para que agradem ao seu novo público. Mesmo antes do advento do mundo globalizado atual, todas as culturas estiveram envolvidas com traduções interlinguais e adaptações interculturais”, escreve a autora no prefácio, distanciando-se assim das gastas discussões sobre a ilegitimidade das adaptações.
Esse autor que adapta as histórias e tem na internet seu meio ideal de recontar e propagar histórias com um simples forward seria o protótipo do narrador da pós-modernidade. Um tipo de narrador, aliás, profeticamente já exercitado por Walter Benjamin – autor de ensaio definitivo sobre a discussão arqueológica do ofício do narrador – em Passagens, obra-prima com mais de mil páginas de citações selecionadas e comentários sobre leituras feitas na Biblioteca de Paris. Nunca é demais lembrar a interminável sequência de adaptações feitas pelos célebres pintores impressionistas e modernos do quadro “As banhistas”, de Renoir, que aliás, originalmente já nem lhe pertence, se considerarmos toda a história da arte que representa mulheres em banho, como o Nascimento de Vênus de Botricelli, que por sua vez remonta a arte trusca e os afrescos de Pompeia.
Uma Teoria da Adaptação pode ser vista, na avaliação do editor Sérgio Medeiros, como uma ponte entre a teoria da intertextualidade, segundo a qual toda obra é transformação de outra, e a recente teoria do texto encontrado, cuja semente já estava também no velho Benjamin. Essa ideia passaria de sugestão à concretização no meio digital, onde os textos são literalmente encontrados e colocados em novos formatos, passando a gerar novos textos. “E os autores desses textos encontrados não são ao pé da letra autores no sentido clássico, mas adaptadores”, explica Medeiros. “Cai por terra a relação de causa e efeito entre criador e criatura, como se o autor fosse anterior à obra, ou se a tirasse de si mesmo”. Na teoria da adaptação afirma-se a ideia já sugerida por Roland Barthes em “A morte do autor” de que toda autoria é coletiva.
Em diálogo com todos esses textos, Linda Hutcheon aponta, na metáfora e no funcionamento da adaptação, o emblema para compreender as mudanças estéticas que caracterizam a passagem do século XX para o século XXI. A autoria na era digital parece se estabelecer não na arte de redigir textos, mas de encontrá-los e adaptá-los e a internet torna-se, como o palco do teatro, um lugar bem menos ortodoxo do que aqueles que fiscalizam a sua pureza, segundo Philip Pullman. “O palco sempre recebeu com alegria quaisquer boas histórias”.
Lançamento: Uma teoria da adaptação
Editora da UFSC
Autora: Linda Hutcheon
Tradução: André Cechinel
Local: Feira de Livros da EdUFSC/LEU
Data: 8/4, das 9 às 19 horas.
Raquel Wandelli, jornalista na SeCarte/UFSC
(048) 37219459 e 99110524
Professora de Jornalismo da Unisul,
doutoranda em Literatura/UFSC
raquelwandelli@yahoo.com.br
raquelwandelli@ufsc.br



Imagens dos Açores é uma Exposição composta por 30 imagens ampliadas (tamanho 40X50cm) em papel fotográfico em cores. Os retratos, feitos no arquipélago dos Açores, mostram arquitetura, festas populares, costumes tradicionais, as freguesias rurais, artesanato, o folclore e também as belezas naturais do arquipélago.
























