Pesquisadores e índio Ticuna promovem diálogo sobre culturas na UFSC

14/05/2012 15:39

A arte, a ciência e o misticismo dos índios brasileiros encerram ainda um mundo de mistério que fascina e intriga as sociedades brancas na descoberta do outro colonizado. Os Ticuna, povo indígena mais numeroso da Amazônia e do Brasil, são os grandes homenageados das atividades em comemoração à 10 a. Semana Nacional dos Museus na Universidade Federal de Santa Catarina. Pacíficos mas irredutíveis na luta por seus direitos, os Ticuna, ou povo Magüta, são tema de conferências, debates e de uma impressionante exposição de máscaras, esculturas e objetos ritualísticos que representantes dessa nação do Alto Rio Solimões irão conhecer em visita ao campus universitário em Florianópolis.

 

Com a presença de Nino Fernandes, representante famoso da nação Ticuna (ou Tukúna), o debate “Museus e povos indígenas: espaço para o diálogo intercultural” abre a Semana dos Museus no dia 19 de maio, como parte das atividades do Projeto Museu em Curso. A mesa-redonda será realizada às 18 horas, no segundo andar do novo prédio do Museu de Arqueologia e Etnologia Professor Oswaldo Rodrigues Cabral (MArquE/UFSC), em uma parceria com o Curso de Graduação em Museologia da UFSC, o Instituto Brasil Plural e o Museu Amazônico da Universidade Federal da Amazônia. Além do ticuna Nino Fernandes, diretor do Museu Magüta, localizado em Manaus, participam da mesa de discussão João Pacheco de Oliveira e Priscila Faulhaber, dois grandes antropólogos, pesquisadores e indigenistas.

 

O objetivo da semana é imergir no mundo pensado e vivido pelo povo Ticuna, diz a chefe da Divisão de Museologia, Cristina Castellano. Mundialmente conhecidos por seus rituais de iniciação da puberdade, como a Festa da Moça Nova, os Magüta foram visitados por um pesquisador catarinense pela primeira vem em julho de 1962. Nesse ano, o antropólogo do antigo Museu da UFSC, Sílvio Coelho dos Santos, já falecido, realizou sua pesquisa de campo do Curso de Pós Graduação em Antropologia do Museu Nacional do Rio de Janeiro entre os Magüta do Alto Solimões.

 

A exposição “Ticuna em dois tempos”, que vai até o dia 25 de outubro no Marque, reunindo a coleção do antropólogo e do artista plástico amazonense Jair Jacmont, é uma mostra do colorido e da exuberância da arte desse povo, que se notabilizou em todo mundo por sua cosmogonia e objetos ritualísticos. As mais de 300 peças em exposição expressam também o modo de ver o mundo dessa grande nação espalhada entre a Amazônia brasileira, Colômbia e Peri, que divide os indivíduos de sua sociedade de castas em duas linhagens, entre as quais se classificam todos os seres vivos, humanos ou não: a das aves e a das plantas.

 

Palestrantes:

 

O Ticuna Nino Fernandes dirige o Museu Magüta, o primeiro museu indígena do país que, em 1996, foi premiado pelo International Commitee on Museums (ICOM) e em 1999 foi tema de uma grande exposição realizada no Tropenzmuseum (Museu Tropical) em Amsterdam. Nino Fernandes recebeu a Ordem do Mérito Cultural do ano de 2005 do então presidente Lula e do ministro da Cultura Gilberto Gil. Em 2007 foi agraciado com a Comenda da Ordem do Mérito Cultural e em dezembro de 2008 com o Prêmio Chico Mendes, outorgado pelo Ministério do Meio Ambiente.

Autor de volumosa obra, entre livros e artigos publicados, João Pacheco de Oliveira é Professor Titular do Museu Nacional do Rio de Janeiro, curador das coleções etnológicas do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social e docente do da UFRJ. Foi presidente da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) entre 1994 e 1996 e por diversas vezes exerceu a função de coordenador da Comissão de Assuntos Indígenas, função pela qual responde também na atual gestão.

 

Atuando ao lado dos Ticuna desde a década de 1970, Oliveira foi um dos fundadores e primeiro presidente do Centro de Documentação e Pesquisa do Alto Solimões. A entidade criada em 1986 deu origem ao atual Museu Magüta, administrado pelo movimento indígena, por meio do Conselho Geral da Tribo Tikuna. Em 1977 publicou a dissertação As Facções e a Ordem Política em uma Reserva Tükuna, defendida pela UnB e em 1988 a tese “O Nosso Governo”; os Ticuna e o Regime Tutelar, pela UFRJ.

Priscila Faulhaber é pesquisadora da Coordenação de História da Ciência do Museu de Astronomia e Ciências Afins e pesquisadora-associada do Museu Paraense Emílio Goeldi, de Belém. Atua como professora do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal do Amazonas e do Programa de Pós-Graduação em Museologia da Unirio.

Sua dissertação de mestrado, defendida em 1983 (UnB), foi publicada em livro sob o título O Navio Encantado; Etnia e Alianças em Tefé. Nela a pesquisadora enfoca o contexto das relações inter étnicas dos povos Miranha, Matsé (Mayoruna) e Cambeba e vários segmentos da sociedade envolvente na região de Tefé, no Médio Rio Solimões. Sua tese, O Lago dos Espelhos; um estudo antropológico a partir do movimento dos índios de Tefé/AM, de 1992 (Unicamp), publicada em 1998, oferece exame sobre o entendimento de fronteira étnica, definida a partir das tensões produzidas com a demarcação das terras indígenas no Médio Solimões.

As relações entre a iconografia das máscaras ticuna da Coleção Curt Nimuendaju (1941/1942) e a mitologia exposta na monografia desse etnólogo remete, como escreve a autora, “à análise da performance do ritual de puberdade feminina”. Diz Priscila Faulhaber que essa simbologia “toca as temáticas da fertilidade da mulher e da natureza, da complementaridade das metades, da passagem do tempo, das obrigações sociais da mulher e dos papéis e lugares na organização social Ticuna.”

Quem são os Ticuna

1.    Autodenominação – Magüta

2.    Língua e família linguística – Ticuna

3.    Quantos são – totalizam cerca de 52.000 pessoas

4.    Onde habitam – no Brasil, Colômbia e Peru. No Brasil a maioria ocupa a região do Alto Solimões, ocorrendo também presença no médio e no baixo curso do rio Solimões, estado do Amazonas

5.    Terras Indígenas no Brasil – atualmente somam 28. Homologadas e registradas: 20; homologadas: 03; declaradas: 04 e em identificação: 01

 

Vivem em mais de uma centena de aldeias e atualmente algumas famílias habitam também centros urbanos como, por exemplo, Benjamin Constant, São Paulo de Olivença, Beruri e Manaus.

Integrantes do povo Ticuna se encontram em processo de escolarização nas aldeias ou fora delas, o que implica o ingresso em diversos cursos superiores, incluindo os de Licenciatura Intercultural Indígena, da Universidade Estadual de Amazonas (UEA) e Universidade Federal de Amazonas (UFAM). Para incentivar e monitorar esse processo de escolarização, os Ticuna criaram a Organização Geral dos Professores Ticunas Bilíngues (OGPTB) em dezembro de 1986.

Em sua vigorosa postura pela autodeterminação e reconhecimento de seus direitos territoriais instituíram, em 1982, o Conselho Geral da Tribo Ticuna (CGTT) e posteriormente, em 1990, o Museu Magüta, localizado no município de Benjamin Constant, no Amazonas.

Fonte: Instituto Socioambiental (http://www.socioambiental.org.br/)

 

Serviço:

 

O quê: Mesa redonda do Projeto Museu em Curso “Museus e Povos Indígenas: Espaço Para o Diálogo Intercultural”.

Quando: 15 de maio de 2012, das 16h às 18h

Onde: 2° Piso do Pavilhão Antropólogo Sílvio Coelho dos Santos / MArquE – UFSC

Campus Universitário

Entrada franca com direito a certificados

Informações: 48 3721-8604 ou 9325

E-mail: ufsc.mu.museologia@gmail.com

 

Raquel Wandelli

Jornalista da UFSC na SeCArte

raquelwandelli@yahoo.com.br

37219459 e 99110524

Divisão de Museologia

Museu Universitário Professor Oswaldo Rodrigues Cabral – UFSC

Campus Universitário Reitor João David Ferreira Lima – Trindade – CEP 88.040-900 – Florianópolis – Santa Catarina – Brasil
Telefones: 48 3721-8604 / 6473 / 9325

Mostra fotográfica comemora o dia de Portugal

11/05/2012 10:59

O Núcleo de Estudos Açorianos (NEA) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) inaugura no próximo dia 14, segunda-feira, a exposição fotográfica “O Mastro de São Sebastião”, de Joi Cletison, no Espaço Cultural do NEA. A mostra faz parte das manifestações culturais que acontecem no mundo todo, em alusão ao dia de Portugal, 10 de junho. Gratuita, a visitação ocorre de segunda a sexta-feira das 9h às 12h e das 14h às 17 horas, e vai até 29 de junho.

Trazido no século XVIII à cidade de Penha, litoral norte do Estado de Santa Catarina, o ritual do mastro de São Sebastião é uma herança portuguesa. O Grupo Folclórico Armação do Itapocorói mantém a tradição até os dias atuais, encenando-a sempre no mês de janeiro, conforme documentou o fotógrafo Cletison, que é também coordenador do NEA. Em seu registro, Cletison mostra todos os passos dessa prática cultural, desde a busca do tronco de árvores até a oração final.

 

 

O RITUAL

 

Um tronco de árvore é enfeitado pelas mulheres, com ramos, folhas verdes e flores. Os homens o carregam aos ombros e levam em cortejo pela povoação, até a frente da igreja ou praça, onde cravam o mastro no chão. Fincado o mastro, içam a bandeira com a imagem de São Sebastião para que o povo reze, andando ao seu redor ou dançandoem roda. Batempalmas, aplaudem, cantam e fazem suas preces e promessas ao santo. Quando a reza comum termina, algumas mulheres ficam orando junto ao mastro, segurando as ramagens.

O povo percebe a festa como uma cerimônia tradicional cristã, em que elementos naturais, como as flores e o símbolo fálico tornam-se religiosos e sagrados pela presença de São Sebastião. No entanto, a celebração tem um aspecto claramente pagão e pré-histórico, como um ritual de fertilidade: as mulheres retiram flores e folhas do tronco, riem e contam piadas alusivas a sexo. Afirmam que uma flor retirada do mastro garante um bom casamento.

 

SERVIÇO:

QUANDO: 14 de maio a 29 de junho de 2012, de segunda a sábado das 9h às 12h e das 14h às 17h

Local: Espaço Cultural do NEA/UFSC

Informações: (48) 3721.8605 ou nea@nea.ufsc.br

Fotografias para divulgação: http://ftp.identidade.ufsc.br/Exposicao_MastroSaoSebastiao_FotosJoiCletison.zip

Promoção:

UFSC/Secretaria de Cultura e Arte

Realização:

Núcleo de Estudos Açorianos

Apoio:
Direcção das Comunidades/ Governo dos Açores

Agecom

 

 

Matheus Moreira Moraes

Estagiário de Jornalismo da SeCArte/UFSC

3721-8729 / passaportecultural2@gmail.com

Museu abre nesta quarta exposição “Ticuna em dois tempos”

10/05/2012 15:27

A exposição “Ticuna em dois tempos” traz o resultado de duas histórias de amor e homenagem a mais numerosa nação indígena do país. Nesta quarta-feira (9), às 19 horas, no campus da UFSC, o Museu de Arqueologia e Etnologia Professor Oswaldo Rodrigues Cabral (MArquE) cruza dois olhares de duas épocas distintas em duas coleções produzidas com critérios e objetivos diferentes sobre a mesma etnia, os Ticuna ou Mgüta, que vivem no Alto Rio Solimões, na Amazônia brasileira e também na Colômbia e Peru. De um lado, o olhar do historiador e antropólogo catarinense Sílvio Coelho dos Santos, que reuniu sua coleção quando participou de expedição à Amazônia do Curso de Especialização em Antropologia do Museu Nacional, na década de 1960. De outro, o olhar estético do artista plástico Jair Jacmont, que formou sua coleção na década de 1970, adquirindo os objetos dos próprios índios, na cidade de Manaus.

Exibidas pela primeira vez ao público, as duas coleções juntas assombram e fascinam pela beleza e expressividade. A exposição conjunta é um projeto alimentado há longa data pelas duas instituições de extremos opostos do Brasil, com o objetivo de promover o diálogo entre esses dois reveladores olhares para a mesma cultura, explica a diretora do MArquE Teresa Fossari. Começa no dia 10 de maio e vai até 25 de outubro, de segunda a sexta, das 10 às 17 horas.

Integram o conjunto de Sílvio Coelho 53 objetos e  registros de campo, compostos por 135 diapositivos (slides) e dois diários produzidos pelo antropólogo catarinense no coração da selva amazônica. São adornos pessoais, cerâmicas, cestos e utensílios domésticos, bonecas esculpidas em madeira, estatuetas em madeira de macaco prego, esculturas antropozoomorfas, mantas, remos, indumentárias completas, brinquedos infantis, um tambor e principalmente bastões cerimoniais, máscaras e outros objetos ritualísticos utilizados na Festa da Moça Nova, além de slides ampliados de figuras humanas e paisagens.

 

Artista plástico amazonense que se inspira nos Ticuna para produzir seus quadros, Jacmont começou a colecionar as peças de arte indígena que as elites da região consideravam “panema” (azar) dentro de casa. Influenciado pelo movimento cubista na arte, Jair Jacqmont passou a observar tridimensionalidade, textura, cores, formas e conceitos das peças indígenas, como Picasso fez com máscaras e estátuas dos povos africanos. Passou a comprar no Mercado Municipal Adolpho Lisboa, em Manaus, peças Ticuna que os vendedores consideravam “artesanatos”, valorizando-as como genuínas obras de arte, sobretudo pela sua tridimensionalidade. Assim reuniu 135 peças, entre esculturas antropomorfas e bastões de ritmo e de comando usados para danças e rituais, além de uma considerável quantidade de máscaras esculpidas em madeira. Sob a guarda do Museu Amazônico da Universidade Federal da Amazônia desde 1994, essa coleção veio para Florianópolis como parte de uma parceria com a Rede de Museus do Instituto Brasil Plural – IBP.

 

Sílvio Coelho entre os Ticuna

Desde a vivência com os Ticuna (Túkuna, na grafia original) em julho, agosto e setembro de 1962, até o dia de sua morte, em outubro de 2008, de câncer, Sílvio Coelho dos Santos dedicaria sua inteligência e energia física à compreensão do modo de ser índio. Ao retornar da expedição comandada pelo antropólogo Roberto Cardoso de Oliveira, seu orientador, esse legado foi depositado na Reserva Técnica da antiga sede do Museu Universitário, do qual ele foi um dos fundadores, aguardando as condições de climatização e conservação que um acervo dessa natureza e importância exige para ser exposto. Isso só foi possível com a inauguração do grande Pavilhão Sílvio Coelho dos Santos, do MArquE, inaugurado em sua homenagem, no dia 24 último, pela Secretaria de Cultura e Arte da UFSC.

 

Subindo de barco os igarapés e visitando comunidades, Sílvio Coelho recolheu objetos representativos dessa cultura com a preocupação de salvá-los da desaparição e esquecimento futuros, em uma mostra do vínculo afetivo e político que o ligou ao “povo pescado com vara”. A cosmogonia Ticuna acredita que essa gente foi pescada com vara por um herói mítico (Yo´i) nas águas vermelhas do igarapé Eware, segundo conta a chefe da Divisão de Museologia do MArquE Cristina Castellano, que coordena a exposição ao lado da museóloga Viviane Wermelinger  e da restauradora  Vanilde Ghizoni. Depois de nascer do rio, passou a habitar as cercanias da montanha Taiwegine, onde morava o herói, um local preservado até hoje como testemunho sagrado da gênese desses índios que enfeitiçaram o antropólogo catarinense pelo coração e pela mente.

 

Serviço:

Exposição “Ticuna em Dois Tempos”

Local: Museu de Arqueologia e Etnologia Professor Oswaldo Rodrigues Cabral

Universidade Federal de Santa Catarina – Campus Universitário Reitor João David Ferreira Lima – Trindade – Florianópolis – SC

Abertura: 9 de maio, às 19 h

Período de exposição: 10 de maio a 25 de outubro de 2012

Horário: Segunda a sexta (fechado as terças) – 10h às 17h

 

Texto: Raquel Wandelli

Jornalista da UFSC na SeCArte

raquelwandelli@yahoo.com.br

37219459 e 99110524

Horacio González discute o intelectual e a política na América Latina

09/05/2012 19:36

À frente de uma das instituições mais influentes no cenário político e cultural da Argentina, o professor Horacio González tem tido um papel decisivo no debate político pela afirmação da democracia na América Latina, sobretudo com a reabertura da ferida da Guerra das Malvinas. Nesta quinta-feira (10) pela manhã, González está em Florianópolis para uma conferência sobre as relações entre literatura e política tomando como ponto de partida as Malvinas. Com início às 9 horas, no auditório Henrique Fontes, a conferência abre o Ciclo de palestras e debates sobre o tema: Malvinas, mar e meio-ambiente. Sociólogo e professor da Universidad de Buenos Aires, o herdeiro do posto ocupado no passado por Jorge Luís Borges na direção da Biblioteca Nacional de Buenos Aires tem produzido uma intensa discussão em defesa do posicionamento do intelectual em torno das questões emergentes do seu tempo.

Com uma conferência por mês de maio a outubro e um cine-debate em novembro, a série de palestras Malvinas, mar e meio-ambiente tem o objetivo de discutir as questões políticas implicadas no campo político, artístico, cultural e ambiental. Pretende ainda motivar a reflexão sobre o papel dos intelectuais que assumem cargos públicos, conforme a professora de Literatura da UFSC Liliana Reales, que coordena o evento ao lado do professor Raul Antelo, com a união de esforços de três entidades culturais: a Secretaria de Cultura e Arte da UFSC, o Núcleo de Estudos Literários e Culturais (NELIC) e o Núcleo Onetti de Estudos Literários Latino americanos.

Os debates tomam como ponto de partida o caso da Guerra das Malvinas, que mobiliza não só a Argentina, mas toda a América Latina, desde que David Cameron, o herdeiro do país britânico voltou a atacar a Argentina em fevereiro deste ano. Artistas e intelectuais latinoamericanos se armam pela palavra e pelo pensamento no combate aos restos dessa política cultural colonialista. Uma fervilhante discussão sobre o ranço imperial voltou a inspirar a matéria artística e cultural e a mover a esfera pública, à qual se soma com voz e atitude Horacio González.

À frente da bicentenária instituição da Biblioteca Nacional há 25 anos, Gonzáles é responsável por um programa de edições ousado e impactante, pelo Museu do Livro e da Língua, e ainda pela co-produção de uma série de programas veiculados na TV do MEC, o canal Encuentro, chamado O livro perdido, nos quais aparece comentando literatura, política, história (ver: http://www.bn.gov.ar/). “É um exemplo de intelectual que se propõe a conhecer profundamente as questões do seu país, do continente e do seu tempo”, assinala o professor Raul Antelo, que assina um ensaio comentando polêmica entre Gonzáles e Vargas Llosa (ver link http://secarte.paginas.ufsc.br/wp-admin/post.php?post=2237&action=edit&message=1).

Formado em Sociologia na Universidade de Buenos Aires em 1970 e doutor em Ciências Sociais pela USP (1992), cidade onde viveu o exílio, Gonçalez (Buenos Aires, 1944) é integrante do Espaço Carta Abierta, que agrupa intelectuais apoiadores do governo kirchnerista e reivindica o domínio do que os britânicos chamam de Falkland. Tem ocupado todos os espaços de debates para defender a soberania e a democracia da América Latina e pensar o momento político e cultural. Professor titular na Universidad de Buenos Aires e na Universidad Nacional de Rosario, é também animador de várias publicações culturais, tais como a revista El ojo mocho.

Como autor, publicou entre outras obras, de La ética picaresca (1992), El filósofo cesante (1995), Arlt: política y locura (1996), Restos pampeanos. Ciencia, ensayo y politica em la cultura argentina del siglo XX (1999), Cóncavo y convexo. Escritos sobre Spinoza (1999), Retórica y locura. Para una teoría de la cultura argentina (2003), Los asaltantes del cielo. Política y emancipación (2006), Las hojas de la memoria. Un siglo y medio de periodismo obrero y social (2007), Kirchnerismo, una controversia cultural (2011).

 

Serviço:

CICLO MALVINAS, MAR E MEIO-AMBIENTE

Conferência de abertura:

“Literatura e política: a partir de Malvinas”

Horacio Gonzalez, diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires

Data: 10 maio 2012, às 9.00h

Local: Auditório Henrique Fontes do CCE

Aberta ao publico em geral

Entrada franca

 

Informações: professores Liliane REales e Raul Antelo

Raquel Wandelli raquelwandelli@yahoo.com.br 37219459

 

A desconstrução é a justiça

09/05/2012 17:44

Bataille argumentava que, nos homens civilizados, a boca teria perdido a característica relativamente proeminente que ainda tinha nos selvagens. No entanto, o violento significado originário desse órgão é mesmo assim preservado, em estado de latência, porque, de repente, seu sentido insólito pode vir subitamente à tona com uma expressão, dizia Bataille, “canibal literal”, tal como boca de fogo, aplicada às armas com as quais os homens se matam entre si. E desse modo, em certas ocasiões, a vida humana ainda se concentra, de forma bestial, na boca, na medida em que a cólera faz ranger os dentes, ou a abjeção e o sofrimento atrozes fazem da boca o órgão dos gritos mais dilacerantes .
Essa caracterização da boca, não só como a abertura por onde fluem as palavras sublimes, tais como democracia ou justiça, mas uma zona erógena onde tudo quanto é vital se precipita, insere-se na tentativa bataillana de não recair no determinismo do materialismo dialético e, pelo contrário, através do baixo materialismo, definir a cultura não exatamente enquanto processo ascendente de produção, circulação e consumo, mas como elaboração da perda e dispêndio de forças vitais, de caráter circular. Para tanto, Bataille levava em conta, não só tudo aquilo que se depreende do corpo, tal como secreções, dejetos, ou até mesmo a própria pele (de que o moi-peau de Didier Anzieu seria um remoto avatar), mas também tudo o que se põe para fora, pelo buraco da boca, e que não seja linguagem destinada à comunicação, quero dizer, tanto o grito quanto a efusão poética e, consequentemente, o dispêndio que pressupõe a própria morte .
Essa conceituação da cultura levava Bataille a ver a democracia como algo a mais do que um simples e precário equilíbrio entre as classes sociais. Essa é uma forma transitória e simplificadora de conceber a política e, a seu ver, era necessário perceber que a democracia, como ele argumentava, não aporta consigo somente as grandezas, mas também as pequenezas da decomposição . A vida, para Bataille, não sendo unívoca, exigia que o protesto contra o formalismo idealista, ainda dominante, não se limitasse à democracia, em seu sentido representativo. Seu foco não se detinha, portanto, no aquém (en-deçà), simplesmente porque as possibilidades da existência humana podiam muito bem estar situadas para além (au-delà) da formação das sociedades ocidentais e seu modelo acéfalo buscava, entretanto, o elemento soberano que não só elide a racionalidade e exclui a chefia, i.e. o mundo administrado, mas, acima de tudo, também aquilo que solicita a auto-exclusão dos membros da comunidade, presentes sómente através da própria ausência de racionalidade, em sua participação trágica, como sujeitos atravessados pela paixão, isto é, pelo êxtase, portadores que são do destino das imagens .
Ora, essa definição não-mimética, não representativa, não ideal-formal veio se mostrar necessária no recente debate em torno à palestra inaugural de Mário Vargas Llosa na Feira do Livro de Buenos Aires. Vargas Llosa, como sabemos, detestava Derrida, a quem atribuia cultivo do obscurantismo e renúncia à estética, como Marcos Siscar relembrou oportunamente. A circularidade do argumento verifica-se quando analisamos, em detalhe a polêmica. Ela detona quando o diretor da Biblioteca Nacional, Horacio González, em carta a Carlos De Santos, presidente da Câmara do Livro, promotora da Feira, considera “sumamente inoportuno el lugar que se le ha concedido para inaugurar una Feria que nunca dejó de ser un termómetro de la política y de las corrientes de ideas que abriga la sociedad argentina” , opinião de per se discutível mas nunca censurável, muito embora muitos jornalistas tenham visto, na frase de González, um argumento autoritário, quando, a rigor, é um argumento justamente autorizado, mesmo que anacrônico, o do diretor da Casa dos Livros, em carta ao diretor da Feira dos Livros. O conflito põe a nu a íntima e indiscernível fusão entre as esferas da autonomia literária, da soberania política e do mercado. Em sua carta, González acrescenta algo que, mesmo sendo fundamental, tem sido solertemente obliterado. “Lo invito a que reconsidere esta desafortunada invitación—diz González—que ofende a un gran sector de la cultura argentina y que junto a las respectivas comisiones directivas de la Fundación El Libro determine que la conferencia de Vargas Llosa—que podríamos escuchar con respeto en la disidencia— se realice en el marco de la Feria, pero al margen de su inauguración”.
En el marco, pero al margen é uma tópica muito complexa para a física de espaços achatados da mídia global, de que a Folha de S. Paulo é o exemplo local mais próximo . Em nome da liberdade de expressão, o jornalismo “independente” logo se abate sobre González e, na sequência, a própria presidenta, Cristina Kirchner, solicita a González que retire a carta para que não pese nenhuma suspeita de veto sobre o escritor peruano . O escritor e jornalista Horacio Verbitsky logo qualificou a intervenção de González, irônicamente, de fogo amigo . Mas o paradoxo é inegável: para salvar a liberdade formal de poder abrir a boca, fecha-se, sem qualquer cerimônia, a boca do diretor da Biblioteca. Horacio González não tem direito de opinar e é censurado, de fato, não pelo Estado, mas pelo consenso e o lugar-comum da mídia e do establishment. Vargas Llosa, por sua vez, que logo encampou a leitura binária, liberdade de expressão versus ditadura , manifestou-se imediatamente, através de um texto publicado por El Pais de Madri (jornal que integra o mesmo grupo econômico que sua editora, Alfaguara), texto replicado por La Nación, de Buenos Aires, onde acusava González de basear seu veto no fantasma do “nacionalismo”, que ainda grassaria incólume na América Latina. O diretor da Biblioteca Nacional respondeu-lhe, no dia seguinte, através do jornal Página 12, ponderando que, com o recurso ao nacionalismo, Vargas Llosa

Busca enemigos fáciles, a priori repudiados en el mundo globalizado en el que se mueve. ¿Qué peor que el inquisidor y el aldeano reducido a su necedad, el pobre individuo obturado por su cerrazón? ¿Contra eso discute usted, Vargas Llosa? Si es así, no es un polemista genuino, dispuesto a comprender razones y argumentos de sus contrincantes. Se mueve dentro de grandes clichés despojados de espesura, esos que le festejan las derechas mundiales. No vacila, en la cumbre de su fervor por la bravata –una fruición que domina a la perfección, pero con una superficialidad que en general no tienen sus novelas–, en arrojarnos a Ernesto Guevara o a Alberdi como inculpación, y al universalismo democrático y republicano como cartilla que no poseeríamos. ¡Meras argucias del pobre polemista mal informado!

Mas González, entretanto, é bem informado. Dois meses antes da polêmica, resenhara o ultimo romance de Vargas Llosa e aí afirmava, por exemplo, que

Su última novela, El sueño del celta, contiene un breviario del credo liberal de quien la escribe, a la manera de una novela de tesis pero, como veremos, invertida. Es la historia de un personaje históricamente existente, que se situará en los antípodas de ese mismo credo. En verdad, Roger Casement, en su dramática conversión desde su papel de cónsul humanitario del Foreign Office a diplomático prominente del ejército de liberación irlandés, nos sorprende como una figura fanática, un militante iluminado y cercano a un orden sacrificial, tal como los que Vargas Llosa acaba de condenar en su discurso de aceptación del reciente Premio Nobel de Literatura. El novelista premiado condena; pero el novelista sumergido en la penumbra de su gabinete literario traza de manera honrosa el via crucis de su personaje. ¿Cómo pensar esta discordancia?

Ora, segundo González, a questão explica-se pela diluição do experimentalismo, herdado de Faulkner, Flaubert ou Conrad, a tal ponto que Vargas Llosa pode hoje regressar, sem pudor, aos esquemas previsíveis do determinismo histórico do século XIX, ciente de que “la novela moderna nace del distanciamiento de los autores respecto de sus personajes, produciendo una voluntaria e irónica suspensión del juicio moral que fundamenta el oficio mismo del escritor”. Em suas mãos, a Erfahrung modernista tornou-se simples Erlebnis de modernização diluída, mero romance de tese. Mas,

Lo que tienen de tesis las novelas de Vargas Llosa—afirma Horacio González—suele estar menos en sus propios desarrollos que en los actos políticos del liberalismo un tanto fanatizado del escritor en tanto ideólogo –pues con alguna compensación personal tenía que contener su sinuosa predilección novelística por esas almas extremas, atormentadas–. Bajo el peso de sus mismas inmolaciones, ha condenado en el tribunal del Premio Nobel a los sediciosos utópicos, a los cándidos militantes, a los obcecados revolucionarios al borde del escepticismo, que son sus polichinelas y esperpentos, a fin de mostrar un liberalismo universalista, munido de un sumario antitotalitarismo, llamando a “recuperar las libertades”.

E nesse sentido, Vargas Llosa não é, a rigor, um estranho, mas alguém excessivamente familiar, um intelectual sartreano do Establishment.

Héroe de la gran prensa establecida en esas estaciones de reaccionarismo cultural y político, Vargas Llosa es casi un nombre argentino. No ve la compleja pero atractiva hora que vivimos, quiere sacudírsela de encima, pero deja convivir en él los rastros de sus viejos símbolos rotos y la conciencia ya asentada del temor por su propio pasado. Se pasea como marioneta ambulante, aunque no tiene derecho a aleccionarnos sólo por seguir escribiendo sobre los personajes turbulentos de una historia demasiado familiar. No es respetable, aunque sus fantasmas puedan serlo .

Não veio à tona, no debate simplificado, quando não simplório, atiçado pela imprensa , que a presença de Vargas Llosa, em Buenos Aires, não era iniciativa autônoma da Câmara Argentina do Livro, promotora da Feira, mas obedecia ao fato de o escritor ser um dos convidados ao seminário “El desafío populista a la libertad latinoamericana” (Hotel Sheraton, 17-20 abril 2011), promovido pela Fundação Libertad e pelo Instituto Catão, cujo nome nos relembra certas cartas chilenas. Como bem declara a página web do Instituto,

The Cato Institute is a public policy research organization — a think tank — dedicated to the principles of individual liberty, limited government, free markets and peace. Its scholars and analysts conduct independent, nonpartisan research on a wide range of policy issues.

Apoiado nesse previsível programa neoliberal, Vargas Llosa já se perguntara, nas páginas do Cato Policy Report, no início de 2004, qual é o motivo da incontornável falência latino-americana e julgava achar a resposta na impossibilidade de um correto funcionamento das instituições, que não contariam com a confiança dos cidadãos, no sentido de elas garantirem “security, justice, and civilization”. Assim, a vitória de Lula, por exemplo, era atribuída à busca de “algo diferente”, mesmo que essa diferença se manifestasse através de “charismatic leaders and demagoguery”. Por isso, ele clamava por um resgate do liberalismo, “not merely out of homage to truth, but because we live in a difficult time in history, when progress and civilization are threatened” .
Mais recentemente, no final de 2009, Vargas Llosa ainda participou de um outro seminário, “Las amenazas de la democracia en América Latina: terrorismo, debilidad del estado de derecho y neopopulismo” (Bogotá, 19-22 nov, 2009). Nele, e na mesma linha já conhecida, Vargas Llosa argumentou que

El desarrollo y la civilización son incompatibles con ciertos fenómenos sociales y el principal de ellos es el colectivismo (…). El socialismo, el nazismo y el fascismo son los fenómenos colectivistas del pasado. Hoy se expresa en América latina de una manera muy sinuosa y revistiéndose con ropajes que no parecen ofensivos sino prestigiosos (…). El indigenismo de los años ’20 que parecía haberse rezagado es hoy día lo que está detrás de fenómenos como el señor Evo Morales en Bolivia. El indigenismo en Ecuador, Perú y Bolivia está provocando un verdadero desorden político y social, y por eso hay que combatirlo.

Cinicamente, o escritor concluiu que “en el movimiento indígena hay un elemento profundamente perturbador que apela a los bajos instintos, a los peores instintos del individuo, como la desconfianza hacia el otro, al que es distinto”. Em 1973, entretanto, quando Pinochet, através do golpe, torcia o rumo econômico em favor das teses neoliberais da Escola de Chicago, Vargas Llosa escrevia dois textos que vale a pena reler à luz do presente debate. Ambos são corolário e complemento da virada cultural que então se processava. O primeiro é o prefácio à edição espanhola de O sexto, o romance de seu conterrâneo, o indigenista José Maria Arguedas. O segundo é Pantaleão e as visitadoras, romance que se passa na fronteira amazônica e prefigura A guerra do fim do mundo, a reescrita de Os sertões, textos ambos que são sintomas de reconhecer, no Brasil, os aspectos baixos (feitos de bajos instintos, diria Vargas, tais como o sexo e o poder), que aqui se manifestariam de forma mais eloquente até do que no resto do continente. No prefácio a O sexto, Vargas evocava uma anedota bem interessante, que situa a literatura (e a política?) na sua condição marginal.

Un día de noviembre de 1937, un dignatario del régimen fascista italiano, el general Camarotta, que se hallaba en Lima para asesorar a la dictadura de Sánchez Cerro en la reorganización de la policía, asistió a una ceremonia oficial en la Universidad de San Marcos. El acto no llegó a concluir: fue interrumpido por unos estudiantes que se abalanzaron sobre el enviado de Mussolini, lo cargaron en peso y lo zambulleron en la pila del patio de Derecho. En la Prefectura, los jóvenes declararon que, de este modo, querían protestar contra los bombardeos de las ciudades republicanas españolas por la aviación italiana. Entre los agresores, se hallaba José María Arguedas. Tenía ventiséis años, cursaba el cuarto año de Letras, el año anterior había sido detenido por primera vez y privado de su empleo en la oficina de Correos por formar parte de un Comité de Defensa de la República Española que el gobierno declaró ilegal. El baño de Camarotta tuvo consecuencias todavía más serias: Arguedas permaneció encarcelado cerca de un año (de noviembre de 1937 a octubre de 1938) en una prisión de Lima donde convivían, en efervescente promiscuidad, delincuentes comunes y presos políticos. Ésta es la experiencia básica que hizo posible El Sexto .

Mas em 2011, quando Vargas é declarado visitante de honra pela Prefeitura (neoliberal) de Buenos Aires, o banho e a consequente manifestação contrária à visita, seriam qualificados de simples atos de barbárie, sem reconhecer que, junto com a civilização, com seus bombardeios, como os que, ainda hoje, perduram em Tripoli, ou com o massacre de Abbottabad, o que cresce é a barbárie. Nem haveria condições de reconhecer que, ao não questionar o comprometimento da linguagem com esse estado de coisas, é a própria literatura que deixa de ser elevada e sutil e se degrada como bárbara propaganda. Um claro exemplo disso é a leitura torta de Dom Quixote, cuja edição do IV Centenário foi prefaciada por Vargas Llosa, onde o cavaleiro andante é assimilado a um disparatado neoliberal contemporâneo .
Não se trata, tão somente, nesses exemplos globais, de que democracia ou política sejam termos que perderam o sentido. Esse é, precisamente, o resultado da fusão das esferas artística, política e econômica. A propósito, caberia lembrar também que, pouco depois da guerra, Georges Bataille já argumentava que, até certo ponto, a palavra surrealismo perdera o sentido e era então (e tão somente) a ausência de palavra, porque revelava o poder que a língua tem para negar afirmando. O surrealismo foi (atreve-se a dizer, em passado, Bataille, em 1948) a linguagem que vai além das coisas e os surrealistas escreveram como escreveram apenas porque não queriam manter relações semelhantes às que mantêm um patrão e um empregado, um súdito e um soberano. Essa definição surrealista da literatura, como transgressão da evidência, atingia, como se vê, o cerne do caráter enigmático da linguagem. Ao passar da paixão (que o movimenta) para a escrita (que o exprime), o artista surrealista deparava-se com palavras que ele julgava poder submeter à sua paixão, mas que, na verdade, reduziam-no a um mero impulso dominado, criando assim um sutil paradoxo. Se falar, o artista dilui-se como mais uma coisa entre as coisas. Se calar, porém, o mundo, mesmo assim, falaria através de si, subordinando-o ao comunitário. Nem mesmo o escritor mais avesso à retórica poderia ignorar essa situação e, no entanto, ela confina-o ao paradoxo de sentir-se obrigado a se exprimir, através do discurso, e a adotar, em consequência, uma posição intelectual libertária, ainda que a contragosto .
Meio século depois, é Jean-Luc Nancy quem retoma o argumento, a partir, justamente, da noção de democracia. Segundo Nancy, o conceito de democracia tornou-se um caso exemplar de insignificância: forçada a representar o todo da política virtuosa e a única maneira de garantir o bem comum, a palavra acabou por absorver e por dissolver todo caráter problemático, toda possibilidade de interrogação ou de, tão somente, pôr-se em questão .
A hipótese de Nancy é que a democracia moderna pressupõe uma mutação política, uma mutação de cultura tão profunda, que ela passa a ter valor antropológico, juntamente com a mutação técnica e econômica da qual é solidária. Daí sua hipótese de que o contrato social de Rousseau não institua apenas um corpo político: ele produz a própria humanidade do homem. O paradoxo, na perspectiva de Nancy, reside no fato de que a democracia designa, de um lado, as condições das práticas possíveis tanto de governo quanto de organização social, sem intervenção de qualquer princípio transcendente, algo semelhante ao entendimento; mas, de outro lado, democracia também designa a Ideia do homem desde que, subtraída à toda aliança com um além-mundo, como sujeito de uma transcendência incondicionada e, nesse sentido, o conceito de democracia é semelhante ao de razão. A democracia moderna, nessa anfibologia, compromete o homem ontologicamente, e não apenas o cidadão, representado pelo que é comum. Segue-se que a democracia, enquanto política, não podendo ser fundada sobre um princípio transcendente, é necessariamente fundada, ou infundada, sobre a ausência de uma natureza humana. Essa sublimação do individual em nome do povo ou da comunidade, representou o desejo de a política ultrapassar-se a si mesma, eliminando-se como esfera separada, absorvendo e dissolvendo o Estado. A partir dessa auto-sublimação da política, de que o neoliberalismo é o momento extremo, sobreveio a ambivalência e até mesmo a insignificância do conceito de democracia.

Transferindo a soberania ao povo, a democracia moderna mostrou o que permanecia ainda (mal) dissimulado pela aparência de “direito divino” da monarquia (ao menos francesa): a saber, que a soberania não é fundada nem no logos, nem no mythos. Desde seu nascimento, a democracia (aquela de Rousseau) sabe-se infundada. É sua sorte e sua fraqueza: nós estamos no coração desse quiasma .

Torna-se necessário, portanto, dar um pas au-delà e ativar um procedimento neutro: pensar como a política infundada, e por assim dizer, em estado de revolução permanente, tem por tarefa abrir novas esferas que, embora a princípio estrangeiras ao próprio conceito, são, de fato, autênticas esferas da verdade ou do sentido, designações possíveis dessa relação elevada ao infinito que é a política. Daí que o que era antes um impasse, torne-se agora um paradoxo nutriente: pensar a heterogeneidade dessas esferas, em relação à esfera propriamente política, é ela mesma uma necessidade política.
Como a democracia não pode desejar uma polícia das pulsões, que discrimine entre domesticações corretas e incorretas, os valores de barbárie e civilização se tocam de forma tão perigosa quanto criativa, porque esse risco que se assume, o do desvio da correta via, do modo comum, o do senso comum, é o índice certeiro da indeterminação e da abertura do próprio movimento que, no interior de uma sociedade, leva a comandar e a possuir. Não se trata, portanto, como advogava Vargas Llosa, de que progress and civilization are threatened pela incultura e a barbárie, mas que não existe cultura sem barbárie, como Benjamin, aliás, já percebera no limiar da guerra. Um tal movimento, que é tanto de vida quanto de morte, de composição e de decomposição, tanto de sujeito em expansão como de objeto em sujeição, é de um lado um crescimento do ser, no seu desejo de liberdade, mas simultâneamente, é seu afundamento na satisfação material mais plena. Não cabe, portanto, aplicar a essas forças heterogêneas normas ideais formais, uma vez que essas forças em ação se determinam e se regulam, não pelo contrato social infundado, mas por outras vias, ora pelo desafio profundo do conatus de Spinoza, ora pela vontade de potência de Nietzsche. O que democracia quer dizer nesse novo contexto, que é o nosso presente, explica Nancy, é a admissão de todas as diversidades em uma comunidade que não as unifica, mas que implanta, ao contrário, sua multiplicidade e, com ela, o infinito em que elas constituem as formas inomináveis e inacabáveis. A política deve, em consequência, dar a forma do acesso à abertura das outras formas: ela pressupõe uma condição de acesso, não fornece uma fundação, nem determina um sentido. Ao contrário, deve renovar, infinitamente, a possibilidade da eclosão das formas ou dos registros de sentido. Não deve se constituir em forma, mas deve fornecer as possibilidades para o colocar-se em forma das forças. Nancy, em suma, conclui:

“Democracia” é, portanto, o nome de uma mutação da humanidade na sua relação com seus fins, ou com si mesma como “ser dos fins” (Kant). Não é o nome de uma autogestão da humanidade racional, nem o nome de uma verdade definitiva inscrita no céu das Ideias. É o nome, ó quão mal compreendido, de uma humanidade que se encontra exposta à ausência de todo fim dado—de todo céu, de todo futuro, mas não de todo infinito—. Exposta, existente.

Presença, presente, posição, ex-posição são, portanto, para Nancy, termos equivalentes. Nesse sentido, diríamos, não há, na argumentação de Vargas Llosa, nenhuma captação do presente, pelo simples motivo de que não há exposição, não há risco, não há potencialização ao infinito do deveras existente. Ao contrário, como já dizia Saer, una napa asqueante de lugares comunes dignos de una composición de sexto grado turvam ainda mais sua apreciação crítica e derrubam a falácia (extremamente comum, acima de tudo na imprensa independente), de que Vargas Llosa é um bom escritor, embora reacionário. Ele não é bom escritor, porque carece da possibilidade de vislumbrar a abertura e indeterminação, completamente sintomáticas de nosso presente, que agitam a cena contemporânea.
Justamente, em contrapartida, Jean-Luc Nancy continuou trabalhando o argumento da anfibologia conceitual da democracia, chegando a uma análise muito mais acurada do que seria comum ou, no extremo, do que seria o comunismo, como sinônimo da democracia.

Communisme désigne donc la condition commune de toutes les singularités ou sujets, c’est-à-dire de toutes les exceptions—qui ne s’exceptent d’aucune règle mais de l’indistinction insensible et insensée de la pure immanence fermée en soi. Le commun n’est donc rien de sous-jacent aux existants. Il n’y a d’existence que comme exception à un néant muet, clos, inexistant. Commune est la condition des non-communs dont le réseau fait monde, possibilité de sens. Le communisme ne relève donc pas de la politique. Il donne à la politique un requisit absolu: celui d’ouvrir l’espace commun au commun lui-même, c’est-à-dire ni le privé, ni le collectif, ni la séparation, ni la totalité – et d’ouvrir ainsi sans autoriser un accomplissement du « commun » lui-même, aucune façon de le substantifier ou de le faire sujet. Communisme est principe d’activation et de limitation de la politique (là où précisément auparavant la politique avait été pensée comme assomption du commun, d’un être supposé commun) .

Portanto, o comum não tem a ver com uma comunidade (e nesse caso, na argumentação de González, nada deve ao nacionalismo). Pensar desse modo, à maneira de Vargas Llosa, é atribuir uma qualidade fixa e fechada aos seres ou objetos existentes. E a posição de González talvez esteja mais próxima da emergência do in-existente (Kojève, Lacan, Badiou).

Commun désigne l’ouverture de l’espace entre étants (ou choses) et la possibilité indéfinie, peut-être infinie que cet espace s’ouvre et se rouvre lui-même tout autant qu’il change et se modalise lui-même, qu’il se clôt aussi parfois (mais jamais jusqu’à la limite de laisser seul un unique « étant » isolé qui disparaîtrait à l’instant même de son isolation) .

Comum significa, então, espaço, espaçamento, diferença. È, ao mesmo tempo, distância e proximidade. Mas seu sentido não é, não pode ser unitário, como vira e mexe tenta nos demonstrar Vargas Llosa. A esse respeito, em entrevista antes citada, o escritor Martin Kohan pondera o equívoco (intencionado) de Vargas, uma vez que

algo que fue no ser indiferente respecto de usted y de su posición política o de sus opiniones acerca del gobierno argentino actual y abrir la discusión al respecto fue reducido, a mi entender, falsificado, como un gesto de censura e intolerancia, en lugar de pensar justamente que no es que no hubiese tolerancia, lo que no había era indiferencia. No era indiferente que usted viniera y hablara, y se abrió un debate sobre qué perfil de intelectual puede ocupar un lugar u otro, por ejemplo el de la inauguración de la Feria del Libro en Buenos Aires. Eso fue reducido, y yo creo que distorsionado, como una intención de impedir que usted se expresara en la Argentina. Creo que es un buen ejemplo de las trampas posibles del discurso de la tolerancia, cuando presentan como censura algo que a mi entender no lo fue .

Na mesma linha de análise, outro escritor, Mario Goloboff, quem assinou manifesto de apoio a González, reiterou que

cientos de escritores argentinos sólo expresamos “nuestro desagrado y malestar ante la designación del escritor para inaugurar la Feria del Libro”. No hicimos ni dijimos más que eso, pero, evidentemente, [a Vargas Llosa] no basta o no le conviene que así sea: cuando nadie lo ataca, sostiene que lo atacan; cuando nadie lo censura, sostiene que lo vetan y censuran. Quienes lo protegen y utilizan como ariete para operaciones comerciales de alto vuelo, bastante ocultas bajo la batahola política y mediática, mucho más profundas, permanentes y de más largo alcance en esta poderosa avanzada de la lengua española en todo el mundo (y, va de suyo, de sus industrias lingüístico-mediático-culturales), juegan miles de millones de euros en el emprendimiento globalizador y parecen seguir –en tiempos felizmente más pacíficos– aquel mandato del gramático Antonio de Nebrija, de finales del siglo XV: “La lengua es el estandarte de su pueblo y el vínculo que une sus gentes, por eso debe llevarse en expansión a cuanto pueblo acudan sus fuerzas militares” .

Mas o espaço comunitário nem sempre coincide com a guerra expressa, mesmo que o sentido do comum, como aliás previra Bataille, situe-se sempre para além da significação. “Dans cette mesure, il est permis de dire que « communisme » n’a pas de signification, transgresse, déborde et outrepasse la signification : ici, là où nous sommes” . Mas dificilmente Vargas Llosa poderia conceber a democracia ou mesmo a política como esse vazio. Ele precisa materializá-la como disjuntiva, tirania vs liberdade, declinando o paradoxo. Como dizia Juan José Saer, a verborragia onipresente, a sintaxe capenga, seus efeitos de pacotilha, seu narcisismo vulgar, suas imprecisões enfatuadas, tudo conspira para tanto . Horacio González, entretanto, captou esse vazio, característico do acéfalo, em plena tragédia. Em um pequeno libro, “este librito”, como o chama recorrentemente, editado, mecanográficamente, em 1978, no exílio paulista, González lê a sociedade em chave acéfala e borgiana:

El peronismo fué uma fuerza bicéfala, cuyas dos naturalezas llamaban una a la concertación y otra a la radicalización. De este hecho fundacional se conservarán las dos lenguas. Los “antinómicos” rechazarán la concertación con la misma fuerza que los “concertacionistas” recharazán la búsqueda de antinomias. Todos pensaron que el par opuesto no era fruto de una terrible paradoja sino de una temperatura táctica de la que era posible desprenderse en el momento oportuno. Pero esa paradoja es la rueda sonámbula que mueve la lógica de las formaciones histórico-culturales de la Argentina contemporánea, la Argentina del peronismo. Ambas lenguas son el patrimonio cenceptual del peronismo. Que ambas no funcionaran como una totalidad, que entraran en colisión, que actuara una cuando parecia propicia la acción de la otra, es uno de los vacios teóricos y prácticos que el peronismo dejó en una encarnizada ambiguedad. Ambiguedad que en su momento festejamos, ambiguedad que en su momento teorizamos, ambiguedad que sobrevolaba sobre nosotros amenazante y lista para firmar sentencia.

9.
En las dos caídas, particularmente la de 1976, aparece en su trágica desnudez el vacío que crearon las dos lenguas al bifurcarse, con personajes desgarrados que servían alternativamente a una o a otra. El viejo jefe acepta la realidad de esta doble sintaxis, que responde a los dos deseos incumplidos del peronismo, la unidad nacional y el fin de la explotación social, y la consagra en lo íntimo de su reflexión, en la huella visible de su praxis y en los increíbles meandros barrocos que asumía su discurso. El lenguaje central de la formación cultural argentina de los últimos treinta años es ésta monumenta lúdica creada por el peronismo y su viejo jefe, quien se mueve en la textura dialéctica de la furia y de la calma en medio de maravillas sintácticas. Como sonámbulos bamboleantes, todos supimos probar en medio de vapores adormecedores, las bondades de cada uno de los caminos que la lógica interior del movimiento del 45 indicaba como posibles. Todos fuimos sonámbulos de la revolución social o sonámbulos del proyecto de concertación nacional.

O inexistente tem aqui a densidade de uma potência sem ato, de uma espectralidade não realizada, de uma hipótese, mas nunca uma síntese. Devo concluir. Para tanto, porém, voltemos ao início. Logo em 1956, Deleuze já notara, em As duas fontes, a presença de um processo de diferenciação que Bergson resumia na fórmula de que a dicotomia é a lei da vida e, portanto, se a diferenciação é uma ação, ela não pode ser confundida com um simples conceito, mas com a produção de objetos que acham sua razão de ser nessa manifestação de caráter dinâmico. Tal, em poucas palavras, a posterior posição de Jean-Luc Nancy. Em 1933, resenhando o mesmo livro citado por Deleuze, As duas fontes, Borges compreendera também que o objetivo de Bergson era “exaltar los procesos creadores del pensamiento (…) en oposición a la naturaleza de sus resultados, los cuales, según él, uma vez obtenidos, se fijan y se desempeñan de uma manera, más que estática, automática” . Borges, em ignorada e virtual rota de colisão com Vargas Llosa, compreendeu prematuramente que, para Bergson, as crenças políticas nada devem à verdade. “Al igual que el sentido común y todo lo que comunmente pasa por la inteligencia humana, aquella facultad no es sino la resultante de la conformación del hombre al medio social en que vive y esta conformación es una particularidad inherente al orden universal de las cosas” . Reconhecendo, portanto, duas ordens, uma fechada, imanente, e outra aberta, transcendente, Borges avaliava que a vantagem da primeira era que ela “protege al hombre contra peligros de um ejercicio sin contralor de la inteligencia. Los resguarda contra la destrucción social” , ao passo que a vantagem da segunda era a participação mística no comum, com a ressalva, porém, de que “una actitud de carácter místico no es pasiva o contemplativa, como la que encierra la sujeción a los dogmas o a las personas, sino esencialmente activa (…), único poder que hace que la vida humana valga la pena ser vivida” . A abertura do conceito de democracia tem, em suma, vários capítulos latino-americanos. Neles talvez fique mais claro o motivo pelo qual Borges é um escritor e Vargas, um escrivinhador.

Conferência discute literatura e política a partir do caso das Malvinas

07/05/2012 22:06

O professor Horacio Gonzalez, diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires, profere nesta quinta-feira (10) conferência sobre as relações entre literatura e política tomando como ponto de partida o caso das Malvinas. Com início às 9 horas, no auditório Henrique Fontes, a conferência abre o Ciclo de palestras e debates sobre o tema: Malvinas, mar e meio-ambiente. Sociólogo e professor da Universidad de Buenos Aires, Gonçalez teve um forte papel como intelectual no campo do debate político na Argentina, sobretudo nos últimos anos.

A série de palestras Malvinas, mar e meio-ambiente reúne os esforços de três entidades culturais: a Secretaria de Cultura e Arte da UFSC, o Núcleo de Estudos Literários e Culturais (NELIC) e o Núcleo Onetti de Estudos Literários Latino-americanos. Sob a coordenação dos professores Liliane Reales e Raul Antelo, do Curso de Literatura da UFSC, o evento tem o objetivo de discutir as questões políticas implicadas no campo artístico, cultural e ambiental e pensar no papel dos intelectuais que assumem cargos políticos.

Os debates tomam como ponto de partida o caso da Guerra das Malvinas, que mobiliza não só a Argentina, mas toda a América Latina. Desde que David Cameron, o conservador herdeiro do falido país britânico voltou a atacar a Argentina, enviando modernos navios de guerra para o que a Inglaterra insiste em manter sob seu domínio como Falklands, artistas e intelectuais latino-americanos se armam pela palavra e pelo pensamento no combate aos restos dessa política cultural colonialista. Uma fervilhante discussão sobre o ranço colonialista voltou a inspirar a matéria artística e cultural e a mover a esfera pública.

Formado em Sociologia na Universidade de Buenos Aires em 1970, e doutor em Ciências Sociais pela USP (1992), cidade onde viveu o exílio, Gonçalez (Buenos Aires, 1944), se alinha a esses intelectuais. À frente da Biblioteca Nacional de Buenos Aires, tradicional espaço de debates, ocupa a esfera pública para dizer que a América Latina do ano da invasão das Malvinas não é a mesma de 2012, que vive sob regimes democráticos. É professor titular na Universidad de Buenos Aires e na Universidad Nacional de Rosario. Animador de várias publicações culturais, tais como a revista El ojo mocho, integra o Espaço Carta Abierta, que agrupa intelectuais apoiadores do governo kirchnerista.

Como autor, publicou entre outras obras, de La ética picaresca (1992), El filósofo cesante (1995), Arlt: política y locura (1996), Restos pampeanos. Ciencia, ensayo y politica em la cultura argentina del siglo XX (1999), Cóncavo y convexo. Escritos sobre Spinoza (1999), Retórica y locura. Para una teoría de la cultura argentina (2003), Los asaltantes del cielo. Política y emancipación (2006), Las hojas de la memoria. Un siglo y medio de periodismo obrero y social (2007), Kirchnerismo, una controversia cultural (2011). Dirige, desde 2005, a Biblioteca Nacional da Argentina, instituição cujo Bicentenário comemora-se em 2012.

Serviço:

CICLO MALVINAS, MAR E MEIO-AMBIENTE

Conferência de abertura:

“Literatura e política: a partir de Malvinas”

Horacio Gonzalez, diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires

Data: 10 maio 2012, às 9.00h

Local: Auditório Henrique Fontes do CCE

Aberta ao publico em geral

Entrada franca

 

Informações: professores Liliane Reales e Raul Antelo

Raquel Wandelli raquelwandelli@yahoo.com.br 37219459

Um antropólogo catarinense no Alto Rio Solimões

07/05/2012 16:00

Rastros do“povo pescado no igarapé”

 

Quando em julho de 1962 o jovem historiador Sílvio Coelho dos Santos viajou para o território Ticuna em uma expedição arriscada pelo alto rio Solimões,tinha o desafio de agregar experiênciaprática à sua formaçãoteórica como antropólogo. Ao chegar ao município de Benjamim Constant, ao lado da colega Cecília Maria Helm e do etnólogo Roberto Cardoso de Oliveira, que o orientava na pesquisa, encontrou um povo massacrado pelo avanço violento dos seringueiros e madeireiros sobre suas terras após o boom da exploração da borracha. Desfigurado pelo álcool e pela miséria, os Ticuna lutavam para perpetuar a prática de suas tradições. Mas o pesquisador também encontrou um grupode riqueza cultural fascinante, que organiza todos os seres vivos, inclusive os humanos, em duas grandes linhagens, a das aves e a das plantas, e cujas máscaras, desenhos e pinturas ganhariam,por sua força e originalidade,fama internacional. Muito alémda prestação de contas de um trabalho acadêmico exploratório, a coleção de objetosetnográficos, diapositivos e diários de campo inéditos deixados pelo antropólogo representam aretribuiçãoemocionada de um jovem de 24 anos ao povo pacífico, masnão passivo, que o acolheu por três meses e o fez selar o pacto de toda uma vida em defesa dos povos indígenas brasileiros.

 

Desde a vivência com os Ticuna (Túkuna, na grafia original)até o dia de sua morte, em outubro de 2008, de câncer, Sílvio Coelho dos Santos dedicaria sua inteligência e energia física à compreensão do modo de ser índio. No dia 9 de maio, às 19 horas, no campus da UFSC em Florianópolis, o Museu de Arqueologia e Etnologia ProfessorOswaldo Rodrigues Cabral (MArquE) apresenta pela primeira vez ao públicoa coleção com 53 objetos recolhidos entre os Ticuna e os registros de campo, compostos por 135diapositivos(slides) e dois diáriosproduzidos pelo antropólogo catarinense no coração da selva amazônica.Desde que retornou da expedição,no final dos anos 60, esse legado esteve depositado na Reserva Técnica da antiga sede do Museu Universitário, do qual ele foi um dos fundadores, aguardando as condições de climatização e conservação que um acervo dessa natureza e importância exige para ser exposto. Isso só foi possível com a inauguração do grande pavilhão que recebe seu nome, no dia 24 último, pela Secretaria de Cultura e Arte da UFSC.

Subindo de barco os igarapés e visitando comunidades, Sílvio Coelho recolheu objetos representativos dessa cultura com a preocupação de salvá-los da desaparição e esquecimento futuros, em uma mostra do vínculo afetivo e político que o ligou ao “povo pescado com vara”. A cosmogonia Ticuna acreditaque essa gente foi pescada com vara por um herói mítico (Yo´i) nas águas vermelhas do igarapé Eware, segundo conta a chefe da Divisão de Museologia do MArquE Cristina Castellano,que coordena a exposição ao lado da museóloga Viviane Wermelinger  e da restauradoraVanildeGhizoni.Depois de nascer do rio, passou a habitar as cercanias da montanha Taiwegine, onde morava o herói, um local preservado até hoje como testemunho sagrado da gênese desses índios que enfeitiçaram o antropólogo catarinense pelo coração e pela mente.

 

A exposição “Ticuna em dois tempos” traz à tona essa história de amor ao conhecimentoe homenagem a mais numerosa nação indígena da Amazônia brasileira e também do país. Cruza dois olhares de duas épocas distintas em duas coleçõesproduzidas com critérios e objetivos diferentes sobre a mesma etnia. De um lado, o olhar do historiador e antropólogo catarinenserepresentado no material coletado durante a sua participação no Curso de Especialização em Antropologia no Museu Nacional (da antiga Universidade do Brasil), no Rio de Janeiro, na década de 1960. Integram o conjunto de Sílvio Coelho adornos pessoais, cerâmicas, cestos e utensílios domésticos, bonecas esculpidas em madeira, estatuetas em madeirade macaco prego, esculturasantropozoomorfas,mantas, remos, indumentárias completas,brinquedos infantis, umtambor e principalmente bastões cerimoniais, máscaras eoutros objetos ritualísticosutilizados na Festa da Moça Nova, além deslidesde figuras humanas e paisagens.

 

De outro lado, estáo olhar estético doartista plástico Jair Jacmont, que formousua coleção na década de 1970, adquirindo os objetos dos próprios índios, na cidade de Manaus. São mais135 peças, entre esculturas antropomorfas e bastões de ritmo usados para danças e rituais, além de uma considerável quantidade de máscaras esculpidas em madeira. Sob a guarda do Museu Amazônico da Universidade Federal da Amazônia desde 1994,essa coleção veio para Florianópolis como parte de uma parceria com a Rede de Museus do Instituto Brasil Plural – IBP. Explica a diretora do MArquE Teresa Fossarique a exposição conjunta é um projeto alimentado há longa data pelas duas instituições de extremos opostos do Brasil, com o objetivo de promover o diálogo entre esses dois reveladores olhares para a mesma cultura.

Serviço:

Exposição “Ticuna em Dois Tempos”

Local: Museu de Arqueologia e Etnologia Professor Oswaldo Rodrigues Cabral

Universidade Federal de Santa Catarina – Campus Universitário Reitor João David Ferreira Lima – Trindade – Florianópolis – SC

Abertura: 9 de maio, às 19 h

Período de exposição: 10 de maio a 25 de outubro de 2012

Horário: Segunda a sexta (fechado as terças) – 10h às 17h

Diário de campo narra sonho e tragédia dos índios da Amazônia

07/05/2012 15:58

Geralmente à noite, dentro do mosquiteiro, para escapar dos carapanãs, o antropólogo Sílvio Coelho dos Santos escrevia no seu diário de campo todos os detalhes da missão amazônica com uma seriedade científica que não encobria, contudo, o sentimento de idealismo e justiça social do estudante. Ao chegar ao posto Ticuna, no dia 5 de julho, antes de testemunhar as condições de privação e violência em que viviam esses índios, Sílvio revelou sua emoção e o temor de não ser capaz de realizar a missão que lhe fora delegada.

 

-Às 16,30 horas chegávamos a Mariuaçu, sede do Posto Tukúnas, onde fora recebido pelo encarregado, Sr. Bernardino. O prazer de ver os índios foi total e por um momento pensei ter realizado meus sonhos.

 

Assim o pesquisador começa a narrar a expedição ao lado da colega paranaense do curso de especialização Cecília Vieira Helm e do coordenador, Roberto Oliveiraquelhe encomendara a pesquisa (o renomado etnólogo faleceu em 2006, dois anos antes do orientando). Segue-se aí um envolvente e envolvido relato de um narrador empenhado em deixar um registro bastante completo sobre as práticas culturais e religiosas, mitologia, sonhos, doenças, tristezas, educação indígena pelos brancos, luta pela sobrevivência da nação Ticuna.

Com um total aproximado de 200 páginas escritas na grafia da época, o relatório apresenta-se na forma manuscrita e datilografada pelo próprio autor,e já é projeto de publicação da Editora da UFSC. Cópia do material só chegou à direção do museuhá cerca de oito meses,pelas mãos da esposa do antropólogo, Alair Santos. Embora inédito, o diário foi objeto de análise da mestra em Ciências da LinguagemCristina Castellano, que escreveu sua dissertação a respeito da coleção Ticuna sob a orientação do antropólogo Aldo Litaiff, aluno e parceiro de pesquisa de Sílvio no atual MArquE.

 

Ao final do segundo diário, o antropólogo transcreve entrevista com o major Pereira de Melo, que atuou no subcomando do grupo da fronteira de Manaus na expedição Javari de 1960. Sílvio Coelho interroga-o com o objetivo deesclarecer qual era a população metralhada pelo exército na operação que “limpou”a área dos “bandoleiros”, como o major chamava os “apátridas com base no Peru” que, segundo ele, estariam usando os índios em seus ataques às tropas e aos moradores. Uma observação corajosa do pesquisador na última página revela a saga dos índios amazônicos naqueles tempos de ditaduramilitar, extermínio dos povos nativos, extração desenfreada da madeira e política desenvolvimentista:

 

– Pelo modo de narrar os fatos, parece que nosso informante estava consciente que os residentes nesse acampamento e vítimas dos ataques do exército eram índios. Falou-nos de que só uma lata de conserva, usada como panela, e calções que alguns habitantes usavam denunciavam a presença de civilização. Todo o acampamento era de estilo típico indígena.  Uma sepultura recente foi aberta e o morto estava nu, sobre uma rede indígena.

 

Coelho denunciava assim os problemas dos índioscom as autoridades brancas, que procuravam sempre culpar as brigas entre “tribos” pelo seu extermínio. Ao mesmo tempo mostrava a complexidade e poética da sua cultura, enfatizando a forma de organização social e política desse povo de castas patrilineares, que só admite o casamento entre membros de linhagens diferentes (designadas por nomes de aves e deplantas). Todavia, só eles são capazes de interpretar os sinais que indicam o pertencimento a uma ou outra casta.

 

 

O RITUAL DA ADOLESCÊNCIA

 

Como outros exploradores que o sucederam, Sílvio Coelho sofreu o magnetismo pelaFesta da Moça Nova, o worecu, ritual de iniciação femininaque dura três dias. Grande parte dos objetos coletados pertencem a essa tradiçãoque envolve todos os parentes e amigos das aldeias próximas. Inicia com música, bebida (pajarú) e comida preparada pela família na “casa de festa”, preparada pela família da moça que recebe a primeira menstruação. Quando os convidados chegam, os mascarados adentram a festa com uma impressionante coreografia. As máscaras são usadas para expulsar os espíritos malignos e reanimar os espíritos da puberdade, em um movimento que perpetua o ciclo natural de nascimento, crescimento, maturidade e morte. Acalmados os espíritos, as moçasiniciadas na adolescência, são libertasdo retiro em que eram mantidas em “currais” ou “jiraus”. Com os cabeloscortados ou arrancados, surgem ricamente vestidas e adornadas para serem apresentadas a toda aldeia como uma nova pessoa, conforme relata o antropólogo João Pacheco Oliveira.

 

De aparência monumental e impressionante, as máscaras constituem uma das manifestações mais ricas da arte Ticuna. Confeccionadas com fibra de tururi (entrecasca de espécie de Ficus), exibem geralmente uma face humana ou zoomorfa esculpida em “pau de balsa” e cocar feito de cortiça de buriti, conforme explica Cristina.Ao fazer o registro do primeiro dia, o pesquisador anota no silêncio noturno do mosquiteiro:

 

– À tarde fomos assistir a um ritual de “Virada” do “Pajarú” – bebida feita de mandioca, para a festa da moça nova – e que se inicia, ao que parece, com um toque de tamborim.  Nessa oportunidade notamos uma índia que catava os piolhos de  uma índia velha e os comia.  Outro fato que despertou nossa atenção foi o fabrico, na mesma casa, de uma bebida feita de banana madura.

 

Apesquisa está norteada pelo conceito de “fricção étnica”,então recém-proposto por Roberto Cardoso de Oliveira, em contraposição à noção de alienação cultural, que pressupõe submissão total da cultura oprimidaà dominante. Em vez disso, Oliveira e Sílvio acreditavam que a relação entre o dominador e o dominante produzia resistência, luta,atrito, contágio e contaminação. Nas páginas amarelecidas pelo tempo, os registros da rotina na aldeia são avivados pornarrativas mitológicas e depoimentos diretos dos índios contando situações de conflito que tornam o relato muito verdadeiro e precioso como material bruto de análise.Utilizados mais além por Oliveira no livro O diário e suas margens: viagem aos territórios Terêna e Tukúna,os originais manuscritos trazemainda informações demográficas, desenhos eestudos genealógicos de famílias que o pesquisador adorava fazer na tentativa de compreender o estranho sistema de clãs do “povo pescado”.

 

Mais tarde, já reconhecido como um dos maiores antropólogos do Brasil, Sílvio se valeria dessa experiência para fazer um trabalho de campo semelhante com o povo Xocleng em Santa Catarina, que deu origem às obras Índios e brancos no sul do Brasil – a dramática experiência dos Xokleng e Os índios Xokleng; memória visual. Como fruto de sua lutajunto a outros antropólogos e indigenistas, finalmente nos anos 1990 os Ticuna lograram o reconhecimento oficial da maioria de suas terras. Hoje enfrentam o desafio de garantir sua sustentabilidade econômica e ambiental e manter vivas suas práticas culturais. A paz dos Ticuna, contudo, está longe de ser alcançada. Passa pela melhoraria de sua relação com a sociedade branca, historicamente marcada pela violência, como já mostram os depoimentos de índios recolhidos pelo pesquisador em seu diário: “Nem todos os civilizados são bons, alguns brigam com os tukuna, às vezes discutem com o freguês e não deixam dever mais de um mês” ou “Omerino Mafra açoitou um tukuna e ele não deixa tukuna vender para quem quer”.

 

Como a primeira jornalista a ter acesso a essa escrita etnográfica, perguntei a mim mesma e a todos que entrevistei: por que Sílvio Coelho dos Santos, de quem fui aluna especial no Curso de Pós-graduação em Antropologia, no qual era coordenador e gozava de amplo prestígio, tendo ainda sido pró-reitor de Ensino de Graduação e também de Pesquisa, presidente da Associação Brasileira de Antropologia, secretário regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, pesquisador sênior do CNPq, nunca se interessou em publicá-lo?  E a resposta que ouço da esposa Alair confirma minha hipótese: “Foi o seu primeiro trabalho como antropólogo;imagino que ele não acreditava no valor que isso pudesseter”. Mas é justamente no idealismo ingênuo e no entusiasmo do pesquisador ao encontrar o outro da antropologia que reside o frescor e o encanto dessa etnografia.

 

“Ticuna em dois tempos” mostra que antes de se tornar um dos etnólogos mais importantes do Brasil e um grande defensor da causa indigenista, Sílvio Coelho fez um “estágio de indigenidade” com esse povo ameaçado pelo que chamava de “interesses capitalistas”. Esse estágio impactou para sempre sua formação científica e humana. Além de antropólogo, ele foi,durante três meses, um jornalista, um fotógrafo, um habilidoso narrador, um Euclides da Cunha na Amazônia. Foi ave ou planta:Sílvio Coelho foi Ticuna!

 

Trechos do Diário de Sílvio Coelho:

 

“Sobre a viagem, posso registrar que está completa. Vivo cenas que sonhei quando garoto e que nunca imaginei viver”.

 

“Aqui o antropólogo tem que ser acima de tudo um equilibrista, pois ora são pontes de um único toro de içara que deve ser atravessado, ora os balanceios e reviravoltas da embarcação na correnteza que deve ser mantida em equilíbrio”.

 

“Nada, narração alguma poderia dar ideia a alguém sobre o que é um igarapé, a bacia amazônica. As prainhas formadas, as curvas, os furos, os pequenos igarapés afluentes, as árvores caídas formam um conjunto indescritível”.

 

 

Reportagem: Raquel Wandelli

Jornalista da UFSC na SeCArte

raquelwandelli@yahoo.com.br

37219459 e 99110524

A semana em que a universidade viveu a dança

02/05/2012 14:33

Apresentação do grupo Fandangos Huelva

Era para ser apenas uma jornada de atividades em homenagem ao Dia Internacional da Dança. Mas a força dessa arte acabou tomando as praças, teatros e palcos ao ar livre do campus universitário de domingo a domingo, em horas de chuva e de sol. Foram oito dias de workshop, cursos, conferências, oficinas, performances e mostras que atraíram um público aproximado de mil pessoas. Na noite do dia 29 de abril, as companhias de dança, bailarinos e coreógrafos que deram mais vida e beleza ao mundo acadêmico durante a I Semana da Dança na UFSC deixaram o Teatro Garapuvu depois de mostrarem porque a dança é a arte do milênio, capaz de arrebatar multidões e tocar os corações. Certamente, como falou o bailarino e coreógrafo internacional Martin Kravitz em sua participação no evento, “o mundo seria melhor se mais pessoas dançassem”.

A grande mostra de encerramento começou com meninas dançando a tarantela e encerrou com uma apresentação de dança-teatro do Open Barthes. Os segredos inconfessáveis do tango, a surpresa da improvisação, a sensualidade trágica do sapateado flamenco, o ritmo alegre das danças folclóricas, a intersecção entre o erótico e o místico nas coreografias árabes, a leveza grave do balé clássico, a ousadia e a liberdade do moderno, as brasilidades e as composições étnicas. A dança contemporânea é a convivência de todos esses ritmos e também a mistura de toda essa ginga, disse Kravitz, em sua primeira visita ao Brasil. O acesso à diversidade foi proporcionado pela I Semana de Dança na UFSC tanto para o espectador das performances e mostras artísticas quanto para os que se lançaram à prática, participando de uma das 10 oficinas gratuitas oferecidas, destaca a secretária de Cultura e Arte Maria de Lourdes Borges.

Apresentação Passion Tangueira

E depois dessa overdose de movimentos, pode-se compreender melhor a enigmática sentença da bailarina Pina Baush, que teve sua obra “coreografada” pelo cineasta Wim Wenders: “Dance, dance ou estaremos perdidos!”. A semana procurou mostrar que a dança é uma forma de conhecimento e autoconhecimento que vai muito além do mero entretenimento, como enfatizou a bailarina Janaína Santos, que coordenou o evento ao lado de Janaína Martins, professora de Artes Cênicas, Vera Tores e Débora Zamarioli, professora do Centro de Desportos. O momento alto nesse sentido foram a conferência e o workshop de Martin Kravitz e Fabíola Biasoli, mas também o lançamento do livro Histórias da dança no dia do encerramento, na presença das autoras e organizadoras Jussara Xavier, Sandra Meyer e Vera Torres. Publicado pela Editora da Udesc dentro da Coleção Histórias da Dança, com prefácio da pedagoga Vera Collaço, o livro reúne 12 ensaios narrando experiências com grupos de dança desenvolvidas desde a década de 40 até os dias atuais que terminam por contar a própria história dessa arte em Santa Catarina.

 

Entrevista a Martin Kravitz

 “Em um mundo ideal, todo mundo aprenderia a dançar”

 

O corpo não é mais tão esguio, como ele próprio diz, mas os movimentos são íntegros, completamente fluidos. Aos 57 anos, além de dançar, Martin Kravitz canta em diversas línguas: alemão, francês, italiano, inglês, espanhol. “Uma vida na dança: pontes artísticas entre épocas e continentes”. Com esse título emblemático, o conhecimento acumulado em 40 anos dedicados à dança, um corpo que embora mais longe dos padrões de um dançarino, cada vez se expressa com mais força, e uns olhos esverdeados que parecem mergulhados nas profundezas da arte, Kravitz falou durante a I Semana de Dança na UFSC sobre sua experiência com essa arte, que começou aos 15 anos de idade.

Grupo Flores do Nilo se apresentando no Centro de Cultura e Eventos

Nascido nos Estados Unidos, mas radicado na França, contou a história da dança através de suas principais influências artísticas e de sua história profissional como bailarino, professor e coreógrafo a uma plateia de artistas e estudantes de dança, teatro e música. Dança e música se entrelaçam em sua proposta de performance, que tem um objetivo definido: mostrar como cada ritmo, cada música se traduz em uma linguagem corporal diferente. “Cada um coloca o corpo em uma postura diferente”, diz o bailarino, que falou também sobre o processo de criação de seu novo solo, Rends-moi tes Mensonges (Devolva-me tuas mentiras), do qual mostrou imagens em vídeo.

Com a verdade de uma coreografia improvisada, o corpo de Kravitz se fez fluído, macio e derretido para expressar o Blues americano. E endureceu, ficou alerta, a postos para escutar as batidas fortes da música alemã. “A variação vinha na voz, nos movimentos, no deslocamento dele pelo espaço. O canto não era separado da movimentação, era uma coisa só, cantava e dançava as músicas, sem interpretar o gestual”, descreve Janaína, que participou do workshop Movimento/Voz/Criação e presenciou sua apresentação durante o curso.

Como bailarino, intérprete, coreógrafo e depois professor de dança contemporânea de diversas companhias, Kravitz nunca se fixou em um único lugar: ensinou em diferentes escolas e projetos na Europa Ocidental, Turquia, África do Norte, Rússia, Japão e China. Com sua companhia, a Martin Kravitz , criou inúmeros espetáculos apresentados na França, Alemanha, Espanha, Tunísia e Rússia. Nas asas da dança, sempre migrou de um local para outro, aberto a conhecer pessoas e técnicas novas e a compartilhar conhecimento. Como viveu em diversos países, não só assimilou em sua arte a cultura desses lugares como também foi influenciado pelos diversos coreógrafos e bailarinos com quem se relacionou, entre eles os Martha Graham, José Limon, Anna Sokolow e Meredith Monk.

Ressonâncias da África no hall do Centro de Cultura e Eventos

Assim, as histórias de vida desses grandes ícones da dança, como Anna Sokolow, diretora socialista da de uma companhia “Batsheva Dance Company” de Israel (1977 -1978), em Israel e sobrevivente do Holocausto, entrelaçam-se com sua própria história e marcam sua personalidade. “O que mais me marcou em Anna foi como ela sobreviveu ao horror dos campos de concentração mantendo-se ao mesmo tempo muito humana e forte, uma mulher que não admitia sentimento de vitimização”.

O bailarino começou a conferência falando de suas origens no Novo México e como as paisagens áridas e ao mesmo tempo planas influenciaram sua criação coreográfica. Diversos coreógrafos famosos procuravam as paisagens do Novo México quando precisavam de um espaço para se inspirar e repensar a dança, comentou. Lá ele cresceu vendo as danças e ouvindo as músicas que a tribo indígena Chalacol executavam em seus rituais sagrados. “Os rituais duravam o dia inteiro e influenciaram muito o meu trabalho”. Esse local energético, cercado de simbolismo místico, era o mesmo que Marta Graham e José Limon iam para se inspirar quando precisavam fazer um novo trabalho coreográfico.

Mesmo tendo atuado como professor no Conservatório Nacional Superior de Paris e na Universidade Paris VIII e em diversas companhias europeias renomadas (Angelin Preljocaj, Jean-Claude Gallotta e Rui Horta), Kravitz manteve a simplicidade de um operário da dança. Antes de viajar para São José do Rio Preto, onde participaria do 9ª Festival de Dança (28 de abril a 5 de maio), Kravitz concedeu uma entrevista em francês, ao lado de Fabíola Biasoli, bailarina brasileira que o acompanha na França e em sua primeira viagem ao Brasil e conheceu no Centro Nacional de Dança, em Paris. Kravitz fala sobre sua forma de ver a dança depois de 40 anos de dedicação e sobre o impacto de Pina Baush, de quem foi contemporâneo. Sofrendo de um grave problema nos ligamentos do joelho e de uma imposição médica para parar imediatamente, ele negligencia essa ordem, alegando que “a dança é minha vida”.

– O que a dança fez por você?

Kravitz: Eu não seria nada sem a dança.

– Qual a importância da dança para a humanidade?

Kravitz: É uma expressão muito verdadeira. A dança nunca mente ou “o movimento nunca mente”, como disse Martha Graham. Ela permite um deslumbramento com a vida, uma realização pessoal, o encontrar seu caminho. Certamente o mundo seria melhor se mais pessoas dançassem.

– Você enfrentou preconceito na dança por ser homem?

Kravitz: Desde a década de 70, quando eu comecei, as companhias de dança já mostravam homens.

– E agora, com a idade mais avançada, você enfrenta preconceitos?

Kravitz: Sim, mas isso vem diminuindo bastante. Há pessoas muito interessadas em ver dançarinos que envelhecem dançando. Um coreógrafo francês, por exemplo, montou um espetáculo para bailarinos maduros. Mas eu terei de parar de dançar por causa do meu joelho. Estou sempre adiando isso para o próximo espetáculo. Pretendo parar em 2013 ou 2014 para continuar apenas ensinando, mas meu médico está tentando me convencer a parar imediatamente.

– O que de mais marcante você imprime na sua coreografia?

Kravitz: Eu diria que o humano ou os estados humanos. Não trabalho com abstrações, mas perseguindo a criação de uma presença cênica muito humana, no sentido da expressão de um olhar verdadeiro.

– Você acha que incentivar a dança pode ser uma forma de melhorar o mundo combatendo a violência, por exemplo?

Kravitz: Em vários lugares do mundo isso já é feito, no lugar de promover a repressão. Com a dança podemos ter, talvez, um desenvolvimento maior do sentimento de tolerância.

– Você atua em projetos sociais?

Sim, temos em Marseille um projeto artístico e social com crianças que vêm de bairros pobres e fazem cursos de balé clássico, hip hop e outras misturas de dança contemporânea. Seis delas já dançam e se apresentam e já se dão conta da expressão que eles podem alcançar com o corpo, de que podem se comunicar com a arte. Isso é mais importante do que a ideia do espetáculo. Creio que é uma forma de se afastar da violência. Pela improvisação da dança, podem exprimir sentimentos violentos, como a agressividade ou a cólera de um momento.

– Como compreender a sentença de Pina Baush: “Dance, dance ou estaremos perdidos”?

Kravitz: A dança carrega uma sensação de verdade. Em um mundo ideal, as crianças aprenderiam música e dança desde muito pequenas. A expressão individual é muito importante para o desenvolvimento pessoal, mais do que o esporte e a competição, acredito.

– O que é a dança contemporânea?

Kravitz: é a dança moderna, de rua, hip hop, o jazz, o clássico, o folclore, a mistura, enfim.


Por: Raquel Wandelli

Jornalista da UFSC na SeCArte

(colaborou: Janaína Santos, historiadora, bailarina e coreógrafa)

raquelwandelli@yahoo.com.br, janaina.santos@ufsc.br

Café Philo da próxima quarta põe em xeque o sistema de ensino

02/05/2012 10:43

No próximo Café Philo as idéias de Pierre Bourdieu sobre os mecanismos de reprodução da desigualdade social e do elitismo nos sistemas de ensino dos países capitalistas estarão em debate. Os estudos do pensador sobre o chamado “campo intelectual” serão apresentados e discutidos pelo professor de história da Udesc Norberto Dallabrida. A palestra, seguida de debate, acontece nesta quarta feira, 2 de maio, às 19h na sede da Aliança Francesa. Esta é a 39ª edição do Café Philo, que é gratuito e aberto ao público.

 

O projeto Café Philo ocorre quinzenalmente, às quartas-feiras, sempre com a apresentação de um intelectual da atualidade abordando obras de pensadores franceses clássicos ou contemporâneos. “O objetivo é reunir a comunidade para discutir temas que tocam a experiência de viver juntos em uma mesma cidade”, explica o idealizador do evento, Pedro de Souza, professor da Pós-Graduação em Literatura da UFSC, que coordena o evento ao lado do professor Rogério Luiz de Souza. Os temas podem ser de ordem filosófica, política, religiosa, literária, entre outros.

 

O pensador

 

Pierre Félix Bourdieu (Denguin – França 1 de agosto de 1930 — Paris – França, 23 de janeiro de 2002) foi um sociólogo francês que desenvolveu uma espécie de sociologia autocrítica, que reflete sobre as contradições e perversidades do próprio campo intelectual e acadêmico ao qual ele pertenceu. Os estudos de Bourdieu abordam questões de dominação do ponto de vista antropológico e sociológico pelas diversas estruturas de ensino. Suas contribuições alcançam as mais variadas áreas do conhecimento humano, discutindo estruturas de poder implicadas na educação, cultura, literatura, arte, mídia, lingüística e política.

 

No ano passado a Editora da UFSC lançou Homo Academicus, livro que questiona profundamente o poder classificatório e autorregulador dos intelectuais. É considerado por especialistas a obra-prima de Bourdieu. Outras importantes obras são: O Poder Simbólico (1992) e As Estruturas Sociais da Economia (2001)Seu primeiro livro, Sociologia da Argélia (1958), discute a organização social da sociedade cabila, e em particular, como o sistema colonial interferiu naquela sociedade, em suas cultura e estruturas sociais.

 

Nas próximas edições do Café Philo estão previstas conferências sobre Foucault, Emmanuel Levinas e Henri Bergson. Em edições anteriores foram discutidas as ideias de autores como Paul Ricoeur, Blanchot, Rousseau, Deleuze, Felix Guattari, Albert Camus, Derrida, entre outros. O ciclo é realizado em parceria entre a UFSC e a Aliança Francesa, organizado pelos professores Pedro de Souza (Literatura e Linguística) e Rogério Luiz de Souza (História), com apoio na divulgação da Secretaria de Cultura e Arte.

 

SERVIÇO:

O que: 39º Café Phillo

Quando: 02 de maio, às 19h

Onde: Sede da Aliança Francesa, Rua Visconde de Ouro Preto, 282 – Centro – Florianópolis/SC

Quanto: Gratuito, aberto ao público.

 

Próximas edições do Café Philo:

16 de maio – palestrante Kléber Prado Filho – tema: Foucault

30 de maio – palestrante Wladimir Antônio da Costa Garcia – tema: Emmanuel Levinas

13 de junho – palestrante Marcos Montysuma – tema: Henri Bergson e a questão da memória

 

Matheus Moreira Moraes

Estagiário de Jornalismo da SeCArte/UFSC

3721-8729 / passaportecultural2@gmail.com

 

Informações para mídia:

99110524 e 37218729

www.secarte.ufsc.br

 

Informações para o público:

Pedro de Souza

tucosanda@gmail.com