Café Philo: O elogio francês ao pensamento selvagem

02/07/2012 11:50

Antropólogo Oscar Calavia-Sáez mostra que obra de Lévi-Strauss estabelece os pilares da cultura humana sem incorrer na arrogância humanista sobre a superioridade da espécie .

Lévi-Strauss

Os teóricos franceses são conhecidos por seu grau de abstração e digressão. Mas tendo dedicado um século de vida para estudar a cultura dos povos ditos “primitivos” e escrever um compêndio de 2.500 páginas sobre a mitologia dos indígenas das Américas, Lévi-Strauss rendeu-se à força do pensamento selvagem. Além de revelar ao mundo a eficiência do raciocínio concreto dos indígenas, baseado na observação e inteligência sensorial, procurou absorvê-lo no seu modo de pensar – e de existir. Lévi-Strauss amava os totens, os ideogramas orientais e a arte figurativa, apenas. “Nada que abolisse as formas e a relação com a natureza lhe interessava. Para ele, nenhuma arte faz sentido se não estiver ligada ao mundo sensível”, revelou Oscar Calavia-Sáez, que conduziu a 43º Edição do Café Philo na noite de quarta-feira (27), no auditório da Aliança Francesa.

O mais surpreendente na obra do antropólogo é que tendo estruturado as bases teóricas sobre as quais se ergue o edifício da cultura humana, Lévi-Strauss foi um dos poucos pensadores do seu tempo que não reproduziu o paradigma antropocêntrico. “Ele decididamente não foi um humanista”, disparou Calavia. E se explicou: “O conceito de humanismo se cria às custas de tudo o que não é humano. E o antropocentrismo que gera é responsável por uma longa lista de malfeitos contra as outras espécies e inclusive contra o próprio homem”.  Vários textos de Lévi-Strauss são muito explícitos na crítica ao sentimento de superioridade da espécie humana, lembra Calavia, sobretudo o final do terceiro volume de Mitológicos, em que ele enaltece alguns rituais indígenas que visavam proteger a natureza da contaminação vinda do sujeito, enquanto o homem branco só pensa em se proteger ele próprio dos perigos do meio. Num sentido mais profundo, Lévi-Strauss acreditava que as mesmas formas que definem o pensamento humano estão inscritas nas coisas e que o homem não pode reclamar uma transcendência independente dos outros seres vivos e não vivos.

Professor do Departamento de Antropologia da UFSC, e bom    conhecedor da obra do pai do estruturalismo, Calavia encerrou a série de debates deste semestre com uma fala eloquente sobre Totemismo e Pensamento Selvagem em Lévi-Strauss.  Autor de Amazônia, China, dos viages de vuelta; O nome e o tempo dos Yaminawa: etnologia e história dos Yaminawa do Alto Acre e Deus e o Diabo em terras católicas, ele substituiu o professor e escritor Sérgio Medeiros, que adoeceu e transferiu sua conferência e o lançamento do livro de poesias Totens para o segundo semestre.

Sobre o famoso conservadorismo do antropólogo nas artes, Calavia explicou que sua crítica à arte não figurativa advém de uma postura em certo sentido ecológica (e pioneira na sua época) de que o ser humano não deve ir além das condições que a natureza lhe dá. “Entendia que o homem precisa respeitar os seus limites para que o resto dos seres no planeta pudesse sobreviver”.  O autor de Tristes Trópicos recusava a obsessão fáustica de que o homem deve quebrar os limites da natureza e considerava que a felicidade estava justamente na dimensão concreta da vida.

A admiração de Lévi-Strauss pelo pensamento e pela arte selvagem está materializada em quatro volumes de Mitológicas, tetrologia de I a IV. Nessa transcrição alucinante de 800 mitos ameríndios que vão do Alasca à Terra do Fogo, ele mostra que todos encontram-se, de algum modo, conectados: um mito é a variante do outro. Não há possibilidade de criação de um relato original, pois todo relato é a transformação de outro, explicou o professor.

Antes disso, em Totemismo, Strauss já desmitificara o antagonismo entre o pensamento ocidental, abstrato ou domesticado, e o selvagem, mostrando que antes de qualquer elaboração teórica apreendemos o mundo pela experiência sensível. O livro desautoriza a utilização do totemismo para demonstrar que há um corte vertical entre as duas culturas. “Nesse ataque ao totemismo, ele o ressuscita, destituindo o que outros pensadores publicaram anteriormente sobre essa separação e mostrando que todas as culturas estão crivadas de totens”. Antes de Lévi-Strauss, o totem tinha sido discutido durante decênios como um enigma, sem que nenhuma teoria conseguisse dar conta da sua complexidade, pois ora o totem tem um caráter individual, ora coletivo; ora os animais representados importam para a alimentação, ora são incomestíveis.

Já antes de Lévi-Strauss os antropólogos perceberam que o totemismo não servia como categoria teórica instrumental para classificar o que quer que seja e preferiram abandoná-lo como categoria teórica, anota Calavia. Todavia, Strauss reabilitou a noção, transferindo-a para um patamar superior ou mais amplo. O que ele disse? “O totemismo foi um falso problema inventado pelos estudiosos para separar o pensamento primitivo do nosso pensamento, uma espécie de curral onde se manteriam separadas formas de pensar que são universais, mas que eram tidas como incompatíveis com a racionalidade”.  Em outras palavras, o totem (o urso, a águia, o búfalo) nos fala apenas do poder ou da utilidade da diversidade das formas no mundo natural para organizar e apoiar o nosso pensamento. Como a espécie humana é muito mais homogênea do que as outras, nos valemos da natureza para ajudar a designar nossa diversidade de ser e nos orientar na selva humana, pois são as diferenças que organizam o pensamento, mostra o professor. Exemplo disso é o totemismo do esporte, onde desfilam leões, gaviões, figueira.

E convencido de que esse “totemismo” é igualmente comum entre africanos, siberianos ou euro-americanos, Lévi-Strauss provocou seus antigos colegas de filosofia, colocando lado a lado o texto de Henri Bérgson, filósofo mais prestigiado da época, e o de um índio Lakota. Considerada uma das atas de nascimento da filosofia indígena, a publicação desses dois textos que descreviam como se desenvolve o ser dizendo praticamente o mesmo, quebrou o pilar da arrogância ocidental. Em O Pensamento Selvagem, Strauss diria que a diferença desse pensamento não domesticado é que “brota como uma flor silvestre”, sem uma disciplina especializada e dedicada a cultivá-lo e mais especificamente sem submeter-se a processos de refinamento pela escrita. A forma como pensamos, portanto, é um produto da domesticação desse pensamento selvagem, com todas as delícias e principalmente dores que o antropólogo francês indianizado demonstrou em sua generosa obra.

O Café Philo é uma promoção do professor Pedro de Souza, do Centro de Comunicação e Expressão da UFSC, em parceria com a Aliança Francesa e apoio da Secretaria de Cultura.

 

Textos: Raquel Wandelli

Jornalista e assessora de Comunicação da Secretaria de Cultura da UFSC

37219459 e 99110524

 

Quem é Oscar Calavia-Saez?

 

Graduado em Geografia e História pela Universidad Complutense de Madrid (1986), fez mestrado em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas (1991), doutorado em Ciência Social (Antropologia Social) pela Universidade de São Paulo (1995) e pós-doutorado pela Centre National de la Recherche Scientifique (2003). Atualmente é professor adjunto da Universidade Federal de Santa Catarina, da Universidad Complutense de Madrid e pesquisador associado do Centre National de la Recherche Scientifique e da Societé des Americanistes. Tem experiência na área de Antropologia, com ênfase em Etnologia Indígena, atuando principalmente nos seguintes temas: etno-história, com foco nas etnias Pano, Yaminawa e Amazonia-China. Este ano publicou Dos viajes de vuelta pela National Geographic, de Barcelona.

 

Alguns livros publicados:

SAEZ, O. C. . Os caminhos de Santiago e outros ensaios sobre o paganismo. Rio de Janeiro: Booklink, 2007

SAEZ, O. C. . O nome e o tempo dos Yaminawa. Etnologia e história dos Yaminawa do Alto Acre. 1ª. ed. São Paulo: Editora da Universidade do Estado de São Paulo, 2006. 478 p.

SAEZ, O. C. . Las formas locales de la vida religiosa. Antropología e historia de los santuarios de La Rioja.. Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 2002. v. 1. 234 p.

SAEZ, O. C. . Deus e o Diabo em terras católicas. Brasil-Espanha. Taubaté: GEIC, 1999. v. 1.

SAEZ, O. C. . Fantasmas falados. 1. ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 1996. 216 p.